terça-feira, 14 de setembro de 2010

Nosso Lar

O bom filho...
Desde a infância o sentido de casa, morada, lar sempre foi claro em minha vida. Mesmo iniciando a compreensão do mundo e das manifestações físicas e metafísicas da nossa existência, mesmo quando algumas palavras e sentimentos não faziam sentido, ainda cedo já havia a certeza latente de que Lar é o lugar acolhedor, aquecido, protetor e para o qual eu sempre, em qualquer circunstância seria bem recebida e retornaria sempre que desejasse. Hoje, com as idas e vindas, fruto das escolhas diárias, permanece este sentido e sei que lá, no meu Lar, resgato todas essas emoções que me completam, confortam e revigoram. Se este sentimento meu, for seu também, acredito que possivelmente ele foi ou será ampliado após uma sessão do filme Nosso Lar.

O filme, baseado na obra homônima de Chico Xavier pelo espírito de André Luiz, nos conta as experiências iniciais do próprio André ao desencarnar e passar a integrar o plano espiritual. Ainda em terra como médico, casado e pai de três filhos, ele morre após negligenciar sua saúde composta de uma rotina de excessos, indo direto para a escuridão e sofrimento do umbral (purgatório). No entanto, essa fase é apenas um capítulo da nova vida de André Luiz, sendo sua elevação espiritual construída diariamente após sentir-se arrependido e ser resgatado por espíritos de luz, sendo então levado para colônia espiritual Nosso Lar. Os questionamentos e relutâncias iniciais, a obsessão em ver sua família que ficou no plano físico, o caráter austero logo vão dando espaço ao aprendizado, certezas e novas virtudes.


A beleza deste filme, e isso para mim é o coração inclusive deste texto, é que ele não tem a pretensão, como em outras adaptações, de ser uma cópia do livro, até porque o conteúdo de uma obra desta magnitude não caberia em 120 minutos de projeção. Percebo que o mesmo se propõe a provocar reflexões individuais, ao invés de limitar-se a fornecer apenas explicações espíritas sobre os fenômenos. O sentimento presente é que por detrás de cada fala, cada cena, caberia outro filme para explicar, se este fosse o sentido, no entanto, o que fica é um leque encolhido, cabendo a nós ampliá-lo, seja por mera curiosidade, ou por real interesse. Além de divulgar informações sobre o ambiente espiritual, Nosso Lar tem um êxito muito maior que é despertar em cada espectador de uma forma diferente, um sentimento único e especial.

A forma dessa comunicação se dá quando em vários momentos a parte aparente deste leque se sobressai. Temas como vida após a “morte”, reencarnação, planejamento de outras vidas, esferas espirituais, espíritos de luz, umbral, entre outros citados em partes específicas do filme, são pontas que, se expandidas, revelarão um mundo riquíssimo de conhecimento e ampliação do olhar bem como elevação espiritual. O filme é o despertar inclusive para procurar no livro uma compreensão maior dos assuntos tratados e, como uma chama acessa internamente, invariavelmente a alma sentirá fome de alimentar-se de outras fontes, conduzindo assim as pessoas a mergulharem neste universo tão bonito que tem palavras como amor, respeito, compaixão, disciplina, merecimento e união como ingredientes fundamentais. 


Estas palavras podem ser observadas ao longo do filme de uma maneira sutil. Amor das pessoas uma pelas outras, de André por sua família e vice versa, dele com os irmãos de Nosso Lar, da forma como os novos habitantes são recebidos na sua chegada. Respeito por cada ser vivente, todas as formas de manifestação de vida e pela própria vida. Compaixão pelos que padecem e sofrem, servindo-os e conduzindo-os a cura. Disciplina para saber o tempo certo das coisas se revelarem e acontecerem, ao tempo que cada um se torna preparado para receber cada ensinamento, advindo de uma vivência, Merecimento fruto da prática do bem para si e para o próximo e União pelo sentido de comum, de partilha, sentimento que perpassa pelo Amor.

Outro aspecto interessante é quanto a apresentação da alternância do sentido das palavras vida e morte. Somos acostumados a ter a ideia de vida, nossa existência na terra, e morte, nossa partida, o deixar de existir. No filme, esse sentido revela-se condicionado a perspectiva real que é o filtro da perda. Sentimos essa alteração ao vivenciarmos o sofrimento de Lísias (Fernando Alves Pinto) da colônia ao despedir-se de sua mãe Laura (Ana Rosa) que irá reencarnar brevemente. O que é vida para nós, é o deixar de existir em Nosso lar, e o que é morte para nós é a chegada de alguém querido por lá...um ciclo infindável de ir e vir, chegar e partir, “ dois lados da mesma viagem” que é a vida. A única coisa que não finda é o espírito, que participa destes ciclos buscando sua evolução e por outras vezes, provocando a evolução de outros a partir de suas experiências terrenas.

Nosso Lar soube ainda utilizar bem os ricos efeitos visuais (investimento de R$ 20 milhões, R$ 5 milhões a mais do que a cinebiografia do Lula, até então a mais cara produção nacional) inserindo de maneira natural os atores à construção gráfica principalmente nos ambientes internos. A figuração da colônia externamente, mesmo com o tom predominantemente futurista, ao contrario de muitos, não me incomodou. Destaque para envolvente e moderada trilha, do mesmo compositor do filme As Horas, o músico Oscar Philip Glass, elevando momentos importantes da trama, como a chegada dos espíritos desencarnados de todas as religiões na segunda grande guerra. 


Quanto aos atores, confesso que achei a mão do diretor (Wagner de Assis) pouco firme na condução principalmente dos que retratam a família de André em terra, interpretações em alguns momentos frias e mecânicas, salvo a maravilhosa Chica Xavier (Ismália) no papel de ama da casa que em apenas um olhar e posteriormente numa frase, rouba toda a cena. A todo tempo esperei de Renato Prieto (André Luiz) uma ascensão mais perceptível, de acordo com a elevação do personagem, o que não aconteceu, resultando numa construção estática de uma figura tão intensa. No entanto, surpreendeu-me a apresentação do Fernando Alves Pinto (Lísias) e o já comprovado talento de Othon Bastos (Governador Anacleto), Werner Schünemann (Emmanuel) e Paulo Goullard (Genésio), que mesmo com poucas aparições foram notas exatas dentro desta harmônica produção cinematográfica. O tom didático principalmente no início do filme é adequado uma vez que são lições e ensinamentos oportunizados pela experiência de André nesta fase espiritual e compartilhados através da elaboração do livro, psicografado por Chico Xavier, que é, mesmo que de maneira sutil, belamente homenageado nos filme em dois momentos.

Recorde em bilheteria de estréia desde o cinema de retomada, Nosso Lar atrai, seja pela curiosidade em ver o show de efeitos visuais, inéditos na filmografia brasileira, seja pela trilha, seja por uma curiosidade relativa à “vida após a morte” pela ótica da doutrina, seja por uma distração familiar, seja pela alegria de ver difundido por um meio de comunicação de massa tão abrangente e encantador que é o cinema, uma realidade espiritual tão forte e possível em nossas vidas. Para quem segue a doutrina, uma realização, ao ver tantas pessoas tocadas ao término de uma sessão. Para que não segue, o exercício do conhecer. A beleza do silêncio exterior em contraponto ao nascimento de um diálogo profundo interno. Ao findar o filme, virar-se e perceber a expressão das pessoas é um espetáculo a parte. E se essas ideias que tocaram individualmente cada espectador ganharem vida e se concretizarem em conversas entre amigos, resenhas de internet, twitters, macro ou micro universos que sejam, é definitivamente a materialização de uma vibração positiva. Por isso  se de repente as pessoas começarem a ler mais livros, freqüentarem centros, pesquisarem em suas casas sobre o tema, a vitória maior é não é apenas do espiritismo, mas do ser humano e sua elevação, que é fundamentalmente seu maior objetivo.

Trailer:

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Mister Lonely


I have nobody...except my monkey
Lembra-se daquela música chatinha chatinha do Akon, aquele rapzinho que no refrão os ratinhos cantavam “Lonely, i´m mr. Lonely, i have nobody only  my own...ouuuuuu uu”, pois, é ela, cantada originalmente por seu compositor, Bobby Vinton, que dá o título e tom literalmente da mais recente produção do Harmony Korine: Mister Lonely.

Roteirista do aclamado Kids  e diretor de Gummo, Julien Donkey Boy, Korine me remete a palavra desconstrução. Em Gummo, histórias fatiadas sobre cotidianos burlescos e bizarros nos chocam desde o primeiro momento (nunca vou esquecer da cena da banheira...) criando um filtro automático que separa quem irá ou não ver os créditos subindo. Vale a experiência. Já em Ken Park, cenas demasiadamente grosseiras e apelativas sexualmente comprometeram o já tão fraco roteiro, de sua autoria, se constituindo em um retorno fracassado da dobradinha com Larry Clark (direção) outrora tão surpreendente conforme visto em Kids. Da sua filmografia, Mister Lonely aparenta ser o mais linear e acessível por utilizar uma linguagem e temática atual de maneira satisfatória, porém sem ofender visualmente o espectador como nas produções anteriores.

Um imitador preciso de Michael Jackson (Diego Luna) vive em Paris fazendo apresentações na rua e em asilos para idosos. Numa dessas encenações conhece uma mulher que personifica Marilyn Monroe (Samantha Morton) que o convida irresistivelmente a ir com ela para uma comunidade onde “todos são importantes e famosos”. Lá ela é casada com o imitador de Charles Chaplin (Denis Lavant) e tem como filha Shirley Temple (Esme Creed-Miles) além de conviver com pessoas que personificam Abe Lincon (richard Strange), Madonna (Melita Morgam), o Papa (James Fox), Os Três Patetas, James Dean (Joseph Morgam), Buckwheat (Michael Joe), Sammy Davis Jr (Jason Pennycook), Rainha Elizabeth II (Anita Pallenberg) e, porquê não, Chapeuzinho Vermelho (Rachel Korine).


Paralela a esta realidade já tão inédita, acompanharemos também, no desenrolar da trama, a história de um grupo de freiras que vivem calmamente trabalhando pela caridade no Panamá sob a tutela de um padre, até que um dia são surpreendidas por um milagre quando em uma missão onde alimentos são despejados de um avião, uma delas cai de uma altura absurda, porém sobrevive ilesa ao impacto.

De fato o que se percebe claramente em todo o tempo do filme é a sombra do monólogo inicial do então sósia de Michael Jackson, na inesquecível cena de abertura, quando ele aparece pilotando uma mini moto, com óculos e mascara, tal qual o ídolo, puxando um balão de macaco com um sorriso congelado. Sua fala “Não sei se você sabe o que é querer ser outra pessoa" seguida de reflexões sobre sua escolha  e seus sentimentos é tristemente arrepiante e já deixa claro, desde o princípio, o universo incomum que sobrepõe a vida do outro a sua própria, condicionando a sua existência a um  retrato desfigurado que induz uma imagem de quem se admira que tragicamente pode, inclusive, nem ser a real.

Todas as pessoas que personificam no filme vivenciam personalidades conhecidas mundialmente, garantindo "sucesso" na sua escolha em viver como alguém que é notado ao tempo que renega sua própria figura, incorporando uma máscara e indumentária representativa que lhe garante segurança e firmeza para levar uma vida sem sentido. Não há nestas pessoas a construção de uma realidade comum, mesmo que fantasiada, como é a das pessoas ordinárias, há sim uma busca desesperada em trazer sentido a sua existência através da existência de outra pessoa a quem se admire. Por isso o espanto quando Michael e Marilyn se questionam sobre quando sentiram pela primeira vez quem se tornariam e a resposta é “desde que nasci” e “desde que senti seus seios”, respectivamente, revelando sua transfiguração e dissociação da figura refletida nos espelho desde a fase onde deveriam estar fortalecendo suas personas.

 
A solidão dessas pessoas é tão presente quanto a sua ausência de perspectivas. Não existem sonhos particulares. Almejar ser um profissional competente, uma boa mãe, um bom marido, ter uma casa, uma viagem especial...não...essas pessoas estão tristemente se realizando em ser caricaturas grotescas de personalidades cujo objetivo de vida é apenas “serem famosos”, amados e especiais. No entanto, mesmo que sutilmente percebemos que esta carapuça é apenas externa, e por mais que haja um esforço em estabelecer uma compatibilidade comportamental e mental com as estrelas, os personificadores deixam escapar seus traços individuais de personalidade... seja através de um Michael apaixonado e sonhador, de uma Marilyn fiel apesar de descontente e triste, de um Papa obsceno ou de uma Madonna sentimentalista. Afinal, onde mais veríamos o Papa consumindo maconha após uma relação sexual com a Rainha Elisabeth II? Ou ainda Marilyn Monroe casar-se com Chaplin e ser mãe de  Shirley Temple? Redes que se estabelecem mesmo que invisivelmente e edificadas apartadas do desejo inicial de cada um dentro do propósito de ser outra pessoa.

Além da loucura de ver atores interpretando personagens que interpretam pessoas reais, Mister Lonely nos encanta pelas belíssimas paisagens e cenas marcantes, principalmente as de queda livre das freiras voadoras, feitas com tamanho zelo que ficamos procurando algum sinal de marca do pára-quedas encobertas sob as roupas, mas a vestimenta azul, tal qual o céu infinito, se torna mágica e é impossível não se sentir por alguns instantes como um observador presente na cena, graças ao quase silêncio celestial rompido apenas pelo som seco do ar, pelo atrito dos corpos, tornando-nos parte daquele “milagre” primeiramente único e posteriormente coletivo.

E é com o final trágico dessa história paralela que entendemos a fatalidade presente no fechamento da trama central. Um milagre deixa de acontecer quando passa a ser imputado a nós ao invés de ser manifestado por nós. Ter uma casca que não se ajusta as nossas evoluções e se remodele de acordo com nosso amadurecimento torna-se desprezível e descartável a medida que os acontecimentos transcendem a vida morta que é viver a vida de outrem. A forma como lidamos com nossas conquistas, nossos encantamentos, estranhamentos e perdas é belamente particular, própria, singular. São esses sentimentos que nos ligam verdadeiramente a nossa essência e ao entrar em contato com elas não existe roteiro a ser seguido...daí o sentido claro em o personagem de Diego Luna optar pelo seu novo caminho, o comum mais especial que ele já viveu: sua própria vida.

Trailer:

domingo, 5 de setembro de 2010

Revolutionary Road - Foi Apenas um Sonho

Prisões da alma
É triste pensar que só com o tempo percebemos que somos nós os responsáveis por criarmos nossos próprios castelos de areia, nos aprisionarmos neles e tão logo findarmos levados por uma maré inevitável e imbatível: o tempo.

Revolutionary Road é fatal ao atirar aos olhos do espectador suas fraquezas e falsos ideais. Os verdadeiros sonhos são aqueles criados quando nada temos. No entanto para onde eles vão após nos lançarmos homeopaticamente em um cotidiano enfadonho, milimetricamente igual mesmo nas surpresas e diferenças que nos arrastam tal qual areias movediças da rotina e prazeres coletivos?

Ter uma casa num bairro adequado, ter uma carreira, ter dinheiro, ter uma família, ter amigos perfeitos, ter uma vida emoldurada e estável. Qual o preço dessa escolha de sonho americano? Kate Winslet e Leonardo DiCaprio retornam juntos, após onze anos, agora sob os olhares e sentidos de Sam Mendes, figurando um casal aparentemente perfeito dos anos 50 (porém, essencialmente atemporais), que ao conquistarem tudo que desejaram deixam de ser quem eram: o frescor da juventude percebido não apenas fisicamente, mas também pelos ideais e sonhos, além da forte unicidade e sentimento de “ser especial e único”, típicos desta fase comum a todos nós, canção que bem entoada no início da história, vai ao longo de trama, desafinando, tornando-se uma ópera triste composta de atos longos e indesejados.


O espaço vazio desolador, a vida plástica e cronometrada intocavelmente é chamada a respirar quando o casal Wheeler, Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet), decide deixar tudo e ir morar em Paris, começar de novo e se redescobrirem. No entanto, os laços invisíveis já demarcados, (assim como com Ana, em Laços de família de Clarice Lispector, impossível não associar, rs) que se emaranha em nossos corpos e os liga as nossas construções materiais e prisões cotidianas, se mostram presentes e incapazes de serem rompidos. Fatalmente o tempo se encarrega de reforçar o poder que a zona de conforto, o lugar comum e práticas estabilidades têm em nossas vidas.

O grande poder de Revolutionary Road é sua fatídica ironia. O desejo inspirador de desconstruir e reinventar se mostra ineficaz nesta tragédia urbana cotidiana de Sam Mendes. Se em Beleza Americana existe uma crítica direta e severa ao “america way of life”, um modo de vida dupla face, externamente brilhante e vistoso e internamente decadente e solitário, em Revolutionary Road essa crítica  acontece de forma subjetiva principalmente em relação a construção e manutenção das falsas virtudes. O retrato da sociedade americana se dá de maneira sutil, avançando o zoom ao máximo e extraindo cada angústia e frustração de um casal que por acreditar ser singular, torna-se automaticamente plural. Este micro olhar revela as imperfeições num patamar infra-estrutural, com uma linguagem indireta, expressa por vezes pelo olhar vago de April, expressando seu estado interior, seja pelas cores da película e das vestes dos personagens, predominantemente pálidas a apáticas, ou ainda pela trilha, repetitiva e marcada, tal qual a rotina enfadonha, tic-tac diário previsível. Um casal ajustado a vida social, e completamente desajustado internamente.

Com saltos grandiosos de interpretação, com Leo (em um de seus melhores papéis dramáticos) como um jovem ambicioso que foi engolido por uma rotina adulta, tornando-se um marido perdido em suas próprias incertezas e Kate (ah...insisto em dizer que ela é fabulosa) como a desencantada dona de casa que ansiava ser atriz e acabou tornando-se figurante de sua própria vida  (impossível esquecer a cena belíssima do bar, onde April converte todo seu desespero em sentir-se viva em uma dança simples, porém pura, como os seus primeiros sonhos). A grande surpresa fica a cargo do Michael Shannon (até então inédito para mim) como o vizinho John Givings, tido como louco, no entanto, ao contrario de todos os outros, o único capaz de enxergar o casal Wheeler como eles realmente são: mergulhados em seus medos e desesperanças. 


Gosto de pensar neste contraponto de sanidade e loucura, observando que nesta encontra-se a razão perdida dos sãos, afinal quando April e Frank anunciam que irão largar tudo e partir para Paris, são tidos como loucos por seus vizinhos, aqueles que espelham os modelos a serem seguidos ao tempo em que se constituem como espectadores e vigias do cumprimento destes acordos tácitos. No entanto, neste momento, a “loucura” apresenta-se como a única cura para os males que a vida “sã” despertou. No entanto, apesar de possível, para quem se engessou querer e fazer deixam de ser linha contínua e tornam-se linhas paralelas.

No filme os sentimentos são expressos como conseqüência das armadilhas de um casamento e das responsabilidades de uma vida adulta, no entanto é algo naturalmente possível, mesmo que triste, repito, a qualquer um, tornar-se justamente o que nunca quis ser. Para enraizar-se em um jardim infrutífero basta podar mesmo que imperceptivelmente todos os dias uma nova chance, e sem querer o fazemos, pequenas procrastinações que futuramente deixarão nossas árvores dos sonhos sem os galhos que representam as diferentes direções que podemos tomar na vida, oportunidades que se anuladas não retornarão. Afinal são apenas dois caminhos e para os que não se movem fica o legado medonho de deixar os sonhos de lado e viver um macabro conto de fadas da vida real.

Trailer legendado:

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Chico Xavier - O filme

"Tem um espírito amigo aqui."


Abnegação [Do lat. tard abnegare
Substantivo feminino
Desinteresse, renúncia, altruísmo, desprendimento, devotamento. 2. Sacrifício voluntário do que há de egoísmo nos desejos e tendências naturais do homem, em proveito de uma pessoa, causa ou idéia.

Você até que podia não saber o que era Abnegação, mas um dos sinônimos acima fez com que sua cabeça clareasse e, além disso, se você viu o filme de Daniel Filho que estreou no dia em que o personagem principal do filme faria cem anos, você também sabe do que estou falando. Isso porque se não existisse essa palavra teríamos que inventar outra a fim de saber, entender e resumir a vida do maior médium do Brasil: Chico Xavier.

De todas as coisas que sempre ouvi durante minha vida sobre este médium uma é comum a todos os outros seres que souberam da sua palavra aqui neste mundo: Caridade. Chico Xavier nasceu, cresceu, se desenvolveu e morreu em nome do amor ao próximo. Sofreu com abusos desde a infância, indo de destrato físico, partindo de sua “madrinhadrasta”, a agressões mentais pelo resto de sua vida. Quase internado em uma clínica para ‘doentes mentais’ teve que escolher um caminho diferente, para que sua história não fosse outra senão a que conhecemos ou passamos a conhecer após o filme de Daniel Filho.


 Para nos contar essa história o diretor utilizou-se da entrevista de Chico ao Pinga Fogo, programa televisivo da década de 70 exibido na TV Tupi, que tinha duração média de 60 minutos e na participação do médium durou 3h. À medida que as perguntas vão sendo feitas pelo corpo de jornalistas, padres e outros profissionais presentes no programa, somos convidados a passear pelas memórias de Chico, ao ponto em que elas são projetadas cuidadosamente da sua infância até o tempo da entrevista, indo além, com o desdobrar dos acontecimentos pós entrevista, desfiando de momentos em momentos para que ao final pudéssemos ter ao menos uma medida rasa porém esclarecedora do que foi a historia deste Homem.

Sim. Do Homem e não da sua crença. Não levantar bandeiras ou instigar discussões religiosas foi uma escolha extremamente feliz desta direção, uma vez que por si só a história do seu personagem-tema já é fascinante, não sendo necessário utilizar-se de paradigmas polêmicos cinematográficos tão presentes em outros momentos da história do cinema. O cenário é sim pautado em cima da evolução do personagem, na sua busca pelas respostas das perguntas que o atormentavam desde menino o que acarretou a descoberta e revelação do seu dom imerso na doutrina espírita, entretanto, este mesmo cenário é posicionado de maneira clara e direta, sem a intenção ou o tom de quem pretende atrair seguidores. 


 Paralelamente a essa via, abre-se a história do drama de um casal que após perder seu único filho, supostamente assassinado pelo amigo, filho da Iara (Cássia Kiss), distanciam-se cotidianamente por caminhos isolados. Enquanto o pai (Tony Ramos) camufla sua dor e afoga-se em seu trabalho, postando sua energia em suas atividades, a mãe (Cristiane Torloni) amargura-se em sua dor, alimenta-se de lembranças, arruinando-se em desconsolo. Para ela, uma carta recebida em uma das sessões de psicografia de Chico Xavier é o alento para seus novos dias, para ele, uma farsa. Dentro da dinâmica do filme a intersecção das duas histórias se dá no dia da apresentação de Chico no Pinga Fogo, uma vez que por trás das câmera, dirigindo o  programa está o Pai  e na platéia a Mãe, que incansavelmente aguarda outra mensagem do filho.

Vale um parênteses para elogiar a primorosa atuação deste trio que, meio a uma já vistosa encarnação (sem trocadilhos) dos atores que representam primorosamente as três fases da vida de Chico: Matheus Costa (infância) , Ângelo Antônio (juventude) e Nelson Xavier (adulto/ velhice), poderia ter passado despercebido. Um ledo engano visto a sensibilidade e doação desses atores que se recolheram cada um na sua dor e formaram uma tríplice tocante, sem necessariamente ser piegas. A dor de cada indivíduo, sob o manto de sua visão particular da mesma história, nos leva a refletir sobre a perda, aceitação e perdão.


Para além de todas as coisas ditas, fica um imenso sentimento de bondade e dedicação. Como se fôssemos sugados inconscientemente para um plano onde desejamos fazer o bem, não um bem grandioso e utópico, mas um bem cotidiano e possível...seja através de uma reflexão antes de tomar uma atitude efervescente, nascida de uma raiva, seja pela troca de um rosto fechado por um simples e entusiasmante sorriso, seja pela leitura de como queremos conduzir nossas vidas. A grandiosidade da vida e pós vida de Chico Xavier está justamente neste poder invisível, porém sensível, que nos toca e nos mantém conectados para o exercício do bem.

Outro grande triunfo sobre a forma de como essa história é contada é quanto a humanização de Chico. De fala mansa e segura, tido para muitos como santo, passagens como a do caso do avião (momento de descontração geral no cinema) nos faz sentir próximos a este homem, através de sentimentos comuns e carnais com nossos medos, angústias, dúvidas e principalmente fé. Faz-nos principalmente pensar que não é necessário ser sobre-humano para ter uma vida de respeito e amor ao próximo e perceber que muitas vezes, esses ingredientes simples são os únicos capazes de fazer qualquer receita de vida dar certo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Abraços partidos

congelar o momento é uma forma de não nos perdermos dele

É sempre um prazer revisitar Almodóvar, seus lugares, suas cores, suas divas, seu mundo próprio singular e ao mesmo tempo tão plural. Mesmo quando a película não é um desenho forte do que estamos habituados a ver, ou algo que esperamos, esse reencontro proporciona sensações únicas.
 
Abrazos Rotos nos convida a visitar a vida de um diretor de cinema, Mateo Blanco (Lluís Homar), que vive o caminho físico da ascensão, apogeu e queda trágica de sua história de amor, perde o ser amado (Lena – Penélope Cruz) e sua visão, abrindo-se então forçosamente para uma nova vida, por trás de uma nova identidade. Com o apoio de uma amiga, Judit (Blanca Portillo), e seu filho, Diego (Tamar Novas), Mateo transforma-se em Harry Caine, roteirista de sucesso que cria histórias para seus personagens, ao tempo que desconstrói a sua.

A trama não traz ineditismos, mas sim uma temática inócua, diferente da maioria dos filmes que alimentam a cinegrafia do diretor tão aclamado por conduzir primorosamente histórias bem mais dramáticas, recortes de vidas, submergidas num vendaval de acontecimentos ao extremo. Entretanto, dentro dessa linha, um traço marcante releva e nos faz relembrar o porquê de potencialmente ele estar à altura de outros grandes diretores: sua capacidade de arrancar o melhor dos atores e da própria história fazendo com que haja um derramamento de emoções e a construção de um cenário incomum, mesmo que possível.

Penélope Cruz, como Lena, aos olhos de Almodóvar, encarna mais uma vez a figura da musa, já presente em Volver. Porém, nesse filme, a áurea exausta ao tempo que cálida de Lena, presa a uma rotina que não sustenta seus anseios (que ironicamente atua na vida real, em uma vida de aparência ao lado do marido, e torna sua área de atuação uma vida real, ao lado do seu verdadeiro amor), faz com que, por alguns momentos, haja uma brecha mais interessante, rico campo de performance para Blanca Portillo, através da sutileza e dor oculta de Judit, proporcionando um espaço de atuação mais pleno, seja pelo seu amor materno e incondicional pelo seu único filho, seja pela paixão latente por Mateo, ou em outros momentos a expressão de quem carrega mais do que agüenta, uma vida de segredos. Apesar de a carga dramática estar focada na personagem principal do filme, existe esse balanceamento, salvo por cenas belíssimas, conduzidas meticulosamente desenhadas por Almodóvar.

Um marido traído assiste a cenas da sua esposa gravadas pelo seu filho. Sentado fisicamente numa cadeira, mergulhado imageticamente em sua vergonha, ele está ao lado de uma profissional de leitura labial que traduz simultaneamente a confissão de sua esposa, nas palavras finais, eis que entra a própria esposa pela porta, assumindo a dublagem do seu próprio discurso no vídeo. A fala do adeus, presente e virtualmente, de fora pra dentro. Arrepiante.

Cenas como essa somado a outros aspectos de produção, que situam a identidade do diretor como iluminação, fotografia, trilha e ambientação, Abraços Partidos ainda com sua simplicidade temática em relação aos outros filmes é muito bom…pelo menos pra mim…e vou dizer porque.

Antes de tudo é muito interessante observar que este é o primeiro filme que vejo do diretor em que o personagem principal é do sexo masculino, porém “macho”. Digo isso pois em Má Educação também temos o foco em personagens masculinos, porém gays. Este ponto e observação, pra mim inédito, apresenta o olhar masculino do amor de Almodóvar, em contraponto ao já tão explorado (e incansável) olhar pela ótica feminina. Esse talvez tenha sido um dos maiores desafios, uma vez que exigiu um cuidado e uma maturidade propostas propositalmente de uma ângulo diferente. A histeria, o descontrole e a sobrecarga emotiva presente em seus filmes com a objetiva focada em personagens femininos, dá espaço aqui a serenidade, inquietude interna e razão masculina.

 
Indo um pouco além, a razão dos acontecimentos faz lembrar como estamos suscetíveis ao inesperado mesmo quando realizamos mudanças significativas em nossas vidas. Achamos que estamos nos arriscando ao deixar “a segurança do nosso mundo” por algo novo que se apresenta, mas o risco maior não é essa mudança em si, e sim a mudança que virá caso a primeira escolha dê errado. Não é um gráfico que sobe e se tem a certeza de que ele se estabiliza. No filme isso é mostrado de uma maneira forte, porém fiel. O que fazer da nossa vida quando confiamos em nossas escolhas, porém outra mudança alheia nossa vontade desnorteia tudo a volta? A sua resposta eu não sei, mas a que Mateo dá para essa pergunta é a fuga: “morrer e nascer como outra pessoa”.

Este renascer implica objetivamente em eliminar a dor e sofrimento vigentes na vida “anterior”, anular uma vida que foi cortada por uma tragédia, outra escolha resultando em mudanças. No entanto, é tênue a linha que separa uma da outra, pois há de se conviver siamesamente com memórias, lembranças acesas que não se apagam pela mera decisão individual. Há de se saber que existe a possibilidade latente de uma visita inesperada capaz de desarmonizar o equilíbrio montado diariamente. É isso que acontece quando uma visita do passado, na figura do enteado de Lena, traz à tona as inquietudes e pensamentos de uma vida que havia sido guardada numa gaveta semi-esquecida externamente em um cômodo de sua casa e internamente numa zona quase inacessível do seu coração, chama reacendida a partir do momento em que Harry resolve assumir as memórias de Mateo e com isso fechar de vez uma ferida que mesmo com o tempo, não secou.

Essa redenção vem de um mecanismo simples, porém crucial: a remontagem do filme com as cenas originais é uma metáfora lindíssima dessa história de amor. A primeira montagem do filme, feita pelo marido traído, retrata um filme feio, falho e fracassado, no entanto, ao toque do diretor, protagonista do seu romance, “mesmo às cegas” as cenas escolhidas para montagem do filme tornam-se harmoniosas gerando uma película coesa, leve e vigorosa. Ligando simbolicamente a montagem definitiva do filme à história de amor, a finalização do filme como se deveria serve, por fim, como o encerramento real dessa história pelas mãos e sentidos de um dos seus protagonistas.

Essa cena também reflete uma homenagem de Almodóvar ao Fazer Cinema. Uma crítica, presente também em outros momentos do filme, a esse cinema predominante atualmente puramente mercadológico (em que para se fazer um filme de sucesso, basta acrescentar ingredientes prontos a uma história que pode nascer de um folheto qualquer), na fala do diretor/roteirista Mateo/Harry que diz que o importante é terminar, mesmo que seja às escuras está refletivo o sentimento de amor pela arte e pelo produto final, mesmo que não se venda o suficiente, nem se agrade o esperado, o mais importante é o fazer, é o estar comprometido com o sua arte.

Pra mim a figura mais interessante dessa trama é a fotografia rasgada do casal de amantes que teve sua escolha arrancada, uma história de um abraço que não pôde ser eterno não por opção de ambos, mas pela inveja, ciúme e orgulho de outrem. Talvez, a grande fábula por trás dessa história seja que os abraços verdadeiros sempre serão partidos, como uma velha fotografia recortada, representando metaforicamente a separação agressiva que se viveu e que mesmo que remontada pelas lembranças, jamais será inteira novamente.

O Curioso Caso de Benjamim Button

"é o bebê da mamãe"

De repente, luzes...sons...do nada viemos e recebemos de presente a dádiva mais celebrada: a vida. Da forma que nos habituamos a entendê-la, nascemos, crescemos, nos desenvolvemos, procriamos, envelhecemos e morremos. Neste decurso, bilhões de conexões se estabelecem, células se multiplicam a medida que deixam de existir e o desaceleramento deste processo garante a falência daquilo que nascemos aos montes. Seca a pele, padecem os órgãos, perdemos a vitalidade da memória; sem escolha, partimos deixando apenas, por um tempo, a carne e lembranças.

Mas, se ao nascermos, nossa vida fosse posta ao avesso? Se a cada amanhecer nos fortalecêssemos e rejuvenescêssemos? Não é necessário pensar muito. Para ter idéia desse simulacro basta acompanhar por 165 minutos O Curioso Caso de Benjamin Button.

Nascido sob o invólucro da velhice, Benjamin Button (Brad Pitt) é apresentado a vida da maneira mais cruel a um primeiro e todos os olhares que se seguem. Como uma aberração é quase jogado a um rio pelo pai que se recusa a criá-lo mesmo após uma promessa feita a esposa morta depois do parto. Por fim, encontra seu destino abandonado a uma escada de um asilo. Começa ai a jornada que atravessará décadas de um homem que caminha na direção contrária de todos aqueles que farão parte de sua vida, que o amarão e serão amados por ele. Benjamin Button é uma correnteza avessa que atravessa significativamente aqueles que nadam em suas águas.

O âmago da história são os encontros e desencontros até que o tempo torne possível a realização física do sentimento de um amor surgido na infância entre Benjamin, na situação preso a condição de apresentar-se fisicamente como um homem de 80 anos, apesar de mentalmente estar na infância e continuar desenvolver-se como um ser humano normal, e Daisy, neta de uma das senhoras do asilo, com 6 anos de idade.

David Fincher, aclamado pela direção de filmes centrados na violência crítica como Seven e Clube da Luta, não deixa de dar seu recado por trás do romantismo e drama que são derramados em O Curioso Caso de Benjamin Button. Se em Seven os setes pecados capitais são propostos como crimes diários comuns que todos nós comentemos sem pudor, e em Clube da Luta a sociedade de consumo, ao mesmo tempo fruto e alimento da famigerada Indústria Cultural é colocada contra a parede e mais uma vez o protagonista subliminarmente é o espectador, em O Curioso Caso de Benjamin Button somos confrontados com questões existenciais que envolverem aceitação, sabedoria individual e solidão.

Benjamin Button nasceu predestinado a ser só, pois sua vida, acima de todas as outras, jamais poderia ser conduzida ao lado de alguém por inteiro. Nem por isso, em nenhum momento do filme, é evocado um tom de revolta ou questionamento. Como foi dito, o que se assiste é uma gratificação por estar vivo, por cada dia ter sua importância, mesmo sem saber até quando, como nota-se através da fala de sua mãe de criação Queenie (Taraji P. Henson) “Agradeça por estar vivo” e logo depois evidenciado por seu pai “No final só resta aceitar, mesmo que no começo sentirmos revolta e indignação, no final aceitamos” e é o que Benjamin Button faz, não como resignação, mas para alcançar a sabedoria de transformar a sua vida e torná-la maravilhosa com as armas que possui.

                               
Não é tarefa difícil perceber as semelhanças de roteiro entre O Curioso Caso de Benjamin Button e Forrest Gump – O Contador de Histórias. De imediato o mesmo roteirista Eric Roth dá pistas da similitude. A biografia de um personagem de história forte, que afeta diretamente a vida dos que o rodeiam. Forrest Gump nasce com problemas para andar, além disso, uma capacidade mental abaixo do esperado e isso de alguma forma o exclui do convívio normal com crianças de sua idade, sendo Benjamin Button uma criança presa a um corpo de idoso e limitado a executar ações condizentes com a sua aparência, construindo sua infância meio a pessoas mais velhas, habituando-se estranhamente a perda quase diária de alguém querido. Ambos apaixonam-se na infância e este amor é o único verdadeiro em suas vidas com escassas possibilidades de se concretizarem a sua vontade, cabendo ao tempo encarregar-se de proporcionar encontros esporádicos até que um corte favorece a realização efêmera do Amor e o convívio com a pessoa amada, para os dois esta é a fase mais feliz em suas vidas. Ambas são mulheres independentes e livres. A presença da figura materna coincide pela força e avidez, que defende sua cria ao tempo que lhe ensina o caminho das pedras. Outro ponto em comum é que ambos os personagens criam laços fortes com pessoas do mar e estes servem como pontes para um mundo novo. No entanto, a sacada genial de Eric Roth e que vai distinguir de maneira sutil as duas histórias são os enlaces com os fatos históricos.

A escolha de em O Curioso Caso de Benjamin Button não se envolver de maneira a interseccionar-se com os fatos históricos é o brilhante diferencial na medida em que em Forrest Gump esta inserção é a tônica vital para a criação da história. A forma como Forrest é “acidentalmente” integrado aos acontecimentos históricos são agentes moldadores do próprio personagem que levam muitas vezes Forrest ser que ele é, o conduzindo a uma maravilhosa e encantadora jornada de construção. Em Benjamin esse distanciamento é uma escolha feliz uma vez que o molde para o personagem título é a sua própria história, seu próprio acontecimento. Qualquer envolvimento direto causaria uma vertente desnecessária a condução do filme, trazendo elementos irrelevantes para a saga do personagem.

Para além de relação com trabalhos anteriores, O Curioso Caso de Benjamin Button se tornará um clássico por contar não apenas da sua excepcional história, baseada no conto de F. Scott Fitzgerald (que, vale ressaltar, possui traços distintos da sua adaptação para as telas. No conto, Benjamin Button nasce não um bebê com aspecto de idoso e sim um adulto idoso, o que cronologicamente é mais coerente a julgar pela reversibilidade). O cuidado quanto a fotografia, ambientação de todas as épocas vividas e cenários (destaque para o hotel onde Benjamin realiza seu romance com Tilda Swinton), figurino e a magnífica maquiagem dos atores. Tanto para envelhecê-los quanto rejuvenescê-los, complementada pela leveza dos efeitos que sutilmente tornam possível essa viagem mágica. A diferença entre os tons durante o filme revela discretamente o sentimento dos personagens principais. A dureza da infância vem destacada pela predominância do marrom e tons escuros, quase borrados, depois com a realização do Amor, o vermelho transpõe o calor e vivacidade, e a todo tempo o contraponto da frieza azul do hospital onde a história é contada.

O elenco parece flutuar devidamente no filme, graças a bela e delicada atuação de Cate Blanchett como Daisy, que atravesa o tempo inversamente a Benjamin, Tilda Swinton, que revela uma firmeza prazeirosa, como a desafiadora Elizabeth e a para mim ainda não conhecida Taraji P. Henson, que destacou-se com brilho especial como a mãe adotiva de Button, Queenie. Já a Julia Ormond (Caroline), acredito que outra atriz poderia fazê-lo por não ter presenciado nenhum ponto de destaque dramatico, mesmo quando foi solicitado. Brad Pitt consegue encontrar a nota certa para ser o condutor da trama, sem arroubos desnecessários, seguro e linear. Ingredientes perfeitos para um personagem que por si só já é um chamativo e tenta ao máximo permanecer na sala da normalidade. O que fatalmente cairia numa caricatura bizarra, encontra a medida exata através da discrição de ser apenas o que é. Impressionou-me o olhar como espelho da alma em inúmeras passagens do filme: O olhar curioso na infância sobre um mundo que se abre diferente externamente, mas da mesma maneira comum a todos internamente, o olhar da revelação ao primeiro e único amor, ao descobrir e redescobrir ao longo de sua vida sua Daisy, o olhar de renovação e mistério ao envolver-se com uma mulher casada, um romance atemporal em um hotel que parece ser ambientado em local algum, e por fim o olhar de maturidade, mesmo já com aparência de um jovem... o contraponto corpo-mente se apresenta de forma verdadeiramente plausível.

A frase que inspirou o conto de F. Scott Fitzgerald “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 e gradualmente chegar aos 18” de Mark Twain, resume magnificamente este filme, porém a realização do mesmo nos permite avaliar que caso acontecesse a tão imaginada associação da maturidade ao melhor estado físico seria impossível fugir das doçuras e amarguras da vida, pois no final não importa nem quando nem como, viver continua sendo um espetáculo único, onde nunca sabemos o que nos espera.

Vicky Cristina Barcelona


 “Por que tanto perder-se/Tanto buscar-se/Sem encontrar-se”

Lá vou eu outra vez praticar o exercício do "pagar para ver", literalmente. Quem conhece um pouco meus gostos cinematográficos sabe da resistência que tenho ao Woody Allen, mas não deixo de ver um filme quando tenho vontade por conta desses filtros, o que as vezes me rende ótimas surpresas; foi assim com A rosa púrpura do cairo e Celebridades e ainda com Manhattan, mas definitivamente Allen não me agrada por inteiro.

No entando, Vicky Cristina Barcelona, talvez pela temática, talvez pelos atores, mas com certeza pela construção dos personagens, me encantou. A escolha pela utilização da irritante narrativa quase me fez desitir do filme. Detesto filmes com narrativa, me sinto substimanda como se o diretor achasse que não somos capazes de decodificar os sinais emitidos durante a trama. Por outro lado instantaneamente me faz pensar na incapacidade ou falta de motivação de deixar subentendido os detalhes que aflorariam naturalmente no desenrolar da trama. Ok, ok...existe ainda a simples condição da "escolha", mas para mim sempre será a pior delas.

Utilizando-se do mesmo diretor de fotografia de Mar Adentro (fabuloso) e Fale com Ela (Amo!) e Os Outros (já viu né...só filme maaara!) Javier Aguirresarobe, Woody Allen nos transporta a uma Barcelona ídílica e um Oviedo dos sonhos possíveis, onde acompanhamos a história das férias de duas amigas Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), antagônicas quanto as certezas, serem invadidas pelo artista plástico Juan Antônio (Jarvier Bardem) ainda preso a um relacionamento conflituoso com sua tempestuosa ex-esposa. Junte esses ingredientes a uma trilha elíptica que dá ritmo e contorno a trama (A música tema Barcelona gruda igual a chiclete) e o prato final é uma história leve e com momentos de um humor inusutado que trata sobre as muitas formas do Amor.

Depois de ser forçosa e diretamente apresentados aos personagens principais (ela de novo, a voz em off da narrativa!) passeamos pelo filme como Deuses apenas espectando os acontecimentos, com uma leve e intermitente sensação de que "já vi isso antes", porém com o sabor da dúvida e ansiosos pela virada do vento. E eis que vem: Penelope Cruz adentra a trama de uma maneira radiante e magnífica. Iluminando com ar de novas possibilidades a história já marcada. Atrevo-me a dizer afinal que sua personagem Maria Helena, que existe desde sempre, mesmo antes de personificá-la, traz à película de Allen o frescor e a vitalidade não presentes verdadeiramente nos outros personagens. A imediata esteriotipação da loucura revela pouco a pouco uma sanidade ímpar. A carta curinga de Allen se revela para mim e fatalmente faz ele vencer o jogo.

Apesar de sair do cinema aliviada pela experiência, com boas reflexões, não passaram cinco minutos para voltar a estaca zero. Bastou um in sight cortante : "Imagine uma história, um cenário, trilha e atores desses na mão do Almodóvar?"....aí meu amigo a pontuação de Allen despenca novamente...e então, a maré entra em ressaca outra vez.