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| O bom filho... |
Desde a infância o sentido de casa, morada, lar sempre foi claro em minha vida. Mesmo iniciando a compreensão do mundo e das manifestações físicas e metafísicas da nossa existência, mesmo quando algumas palavras e sentimentos não faziam sentido, ainda cedo já havia a certeza latente de que Lar é o lugar acolhedor, aquecido, protetor e para o qual eu sempre, em qualquer circunstância seria bem recebida e retornaria sempre que desejasse. Hoje, com as idas e vindas, fruto das escolhas diárias, permanece este sentido e sei que lá, no meu Lar, resgato todas essas emoções que me completam, confortam e revigoram. Se este sentimento meu, for seu também, acredito que possivelmente ele foi ou será ampliado após uma sessão do filme Nosso Lar.
O filme, baseado na obra homônima de Chico Xavier pelo espírito de André Luiz, nos conta as experiências iniciais do próprio André ao desencarnar e passar a integrar o plano espiritual. Ainda em terra como médico, casado e pai de três filhos, ele morre após negligenciar sua saúde composta de uma rotina de excessos, indo direto para a escuridão e sofrimento do umbral (purgatório). No entanto, essa fase é apenas um capítulo da nova vida de André Luiz, sendo sua elevação espiritual construída diariamente após sentir-se arrependido e ser resgatado por espíritos de luz, sendo então levado para colônia espiritual Nosso Lar. Os questionamentos e relutâncias iniciais, a obsessão em ver sua família que ficou no plano físico, o caráter austero logo vão dando espaço ao aprendizado, certezas e novas virtudes.
A beleza deste filme, e isso para mim é o coração inclusive deste texto, é que ele não tem a pretensão, como em outras adaptações, de ser uma cópia do livro, até porque o conteúdo de uma obra desta magnitude não caberia em 120 minutos de projeção. Percebo que o mesmo se propõe a provocar reflexões individuais, ao invés de limitar-se a fornecer apenas explicações espíritas sobre os fenômenos. O sentimento presente é que por detrás de cada fala, cada cena, caberia outro filme para explicar, se este fosse o sentido, no entanto, o que fica é um leque encolhido, cabendo a nós ampliá-lo, seja por mera curiosidade, ou por real interesse. Além de divulgar informações sobre o ambiente espiritual, Nosso Lar tem um êxito muito maior que é despertar em cada espectador de uma forma diferente, um sentimento único e especial.
A forma dessa comunicação se dá quando em vários momentos a parte aparente deste leque se sobressai. Temas como vida após a “morte”, reencarnação, planejamento de outras vidas, esferas espirituais, espíritos de luz, umbral, entre outros citados em partes específicas do filme, são pontas que, se expandidas, revelarão um mundo riquíssimo de conhecimento e ampliação do olhar bem como elevação espiritual. O filme é o despertar inclusive para procurar no livro uma compreensão maior dos assuntos tratados e, como uma chama acessa internamente, invariavelmente a alma sentirá fome de alimentar-se de outras fontes, conduzindo assim as pessoas a mergulharem neste universo tão bonito que tem palavras como amor, respeito, compaixão, disciplina, merecimento e união como ingredientes fundamentais.
Estas palavras podem ser observadas ao longo do filme de uma maneira sutil. Amor das pessoas uma pelas outras, de André por sua família e vice versa, dele com os irmãos de Nosso Lar, da forma como os novos habitantes são recebidos na sua chegada. Respeito por cada ser vivente, todas as formas de manifestação de vida e pela própria vida. Compaixão pelos que padecem e sofrem, servindo-os e conduzindo-os a cura. Disciplina para saber o tempo certo das coisas se revelarem e acontecerem, ao tempo que cada um se torna preparado para receber cada ensinamento, advindo de uma vivência, Merecimento fruto da prática do bem para si e para o próximo e União pelo sentido de comum, de partilha, sentimento que perpassa pelo Amor.
Outro aspecto interessante é quanto a apresentação da alternância do sentido das palavras vida e morte. Somos acostumados a ter a ideia de vida, nossa existência na terra, e morte, nossa partida, o deixar de existir. No filme, esse sentido revela-se condicionado a perspectiva real que é o filtro da perda. Sentimos essa alteração ao vivenciarmos o sofrimento de Lísias (Fernando Alves Pinto) da colônia ao despedir-se de sua mãe Laura (Ana Rosa) que irá reencarnar brevemente. O que é vida para nós, é o deixar de existir em Nosso lar, e o que é morte para nós é a chegada de alguém querido por lá...um ciclo infindável de ir e vir, chegar e partir, “ dois lados da mesma viagem” que é a vida. A única coisa que não finda é o espírito, que participa destes ciclos buscando sua evolução e por outras vezes, provocando a evolução de outros a partir de suas experiências terrenas.
Nosso Lar soube ainda utilizar bem os ricos efeitos visuais (investimento de R$ 20 milhões, R$ 5 milhões a mais do que a cinebiografia do Lula, até então a mais cara produção nacional) inserindo de maneira natural os atores à construção gráfica principalmente nos ambientes internos. A figuração da colônia externamente, mesmo com o tom predominantemente futurista, ao contrario de muitos, não me incomodou. Destaque para envolvente e moderada trilha, do mesmo compositor do filme As Horas, o músico Oscar Philip Glass, elevando momentos importantes da trama, como a chegada dos espíritos desencarnados de todas as religiões na segunda grande guerra.
Quanto aos atores, confesso que achei a mão do diretor (Wagner de Assis) pouco firme na condução principalmente dos que retratam a família de André em terra, interpretações em alguns momentos frias e mecânicas, salvo a maravilhosa Chica Xavier (Ismália) no papel de ama da casa que em apenas um olhar e posteriormente numa frase, rouba toda a cena. A todo tempo esperei de Renato Prieto (André Luiz) uma ascensão mais perceptível, de acordo com a elevação do personagem, o que não aconteceu, resultando numa construção estática de uma figura tão intensa. No entanto, surpreendeu-me a apresentação do Fernando Alves Pinto (Lísias) e o já comprovado talento de Othon Bastos (Governador Anacleto), Werner Schünemann (Emmanuel) e Paulo Goullard (Genésio), que mesmo com poucas aparições foram notas exatas dentro desta harmônica produção cinematográfica. O tom didático principalmente no início do filme é adequado uma vez que são lições e ensinamentos oportunizados pela experiência de André nesta fase espiritual e compartilhados através da elaboração do livro, psicografado por Chico Xavier, que é, mesmo que de maneira sutil, belamente homenageado nos filme em dois momentos.
Recorde em bilheteria de estréia desde o cinema de retomada, Nosso Lar atrai, seja pela curiosidade em ver o show de efeitos visuais, inéditos na filmografia brasileira, seja pela trilha, seja por uma curiosidade relativa à “vida após a morte” pela ótica da doutrina, seja por uma distração familiar, seja pela alegria de ver difundido por um meio de comunicação de massa tão abrangente e encantador que é o cinema, uma realidade espiritual tão forte e possível em nossas vidas. Para quem segue a doutrina, uma realização, ao ver tantas pessoas tocadas ao término de uma sessão. Para que não segue, o exercício do conhecer. A beleza do silêncio exterior em contraponto ao nascimento de um diálogo profundo interno. Ao findar o filme, virar-se e perceber a expressão das pessoas é um espetáculo a parte. E se essas ideias que tocaram individualmente cada espectador ganharem vida e se concretizarem em conversas entre amigos, resenhas de internet, twitters, macro ou micro universos que sejam, é definitivamente a materialização de uma vibração positiva. Por isso se de repente as pessoas começarem a ler mais livros, freqüentarem centros, pesquisarem em suas casas sobre o tema, a vitória maior é não é apenas do espiritismo, mas do ser humano e sua elevação, que é fundamentalmente seu maior objetivo.
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